O
que os demônios fazem quando os anjos dormem
Agora eu sei perfeitamente
O que os demônios fazem quando os anjos dormem,
Após a minha mente
Ser afetada pela imipramina...
Culmina na desordem
Que me acalma.
Tenho na palma
Da minha mão,
Uma baioneta
Para minha inspiração
E uma caneta
Para minha depressão.
- Essa é a faceta que o éden
Tem do inferno?
- O que sabem
Os homens de terno
Sobre a solidão de suas mulheres em casa?
- O que sabem
Essa solitárias mulheres, sobre as asas
Quebradas de seus maridos?
Eu tenho é dó,
Quando sinto
O nó
Da gravata que me aperta o cinto.
Sentir-me só,
Não me dá o direito do pavor que sinto.
No fundo,
Todos comem no mesmo prato
Que o moribundo
Cuspido e escarrado.
No fundo,
Somos todos iguais.
Eu preciso
Dessa paz
Nervosa que a imipramina me proporciona. Eu preciso.
- Vocês entendem? Eu preciso
Dessa paz
Para criar.
Pouco importa
No que vai dar.
Ninguém bate à porta,
Com a certeza convicta de quem vai abrir.
Maldita porta.
Eu preciso explodir,
Tal como a calma que a imipramina me conforta.
Eu preciso dessa paz
Que me conforta.
- O que sabem os homens sobre essa paz?
- A quem importa?
- E o que sabe a paz sobre o que se esconde atrás
Da porta?
Pouco importa
Também.
Na altura dos acontecimentos
É mais confortável copular com as mãos e dizer amém,
Do que me ater aos meus pensamentos.
Vou muito mais além.
Agora eu sei perfeitamente
O que os demônios fazem
Na minha mente,
Quando os anjos dormem
Em pleno estado de imipramina.
- Vocês sabem
O que é cloridrato de imipramina?
Pois eu vou dizer a vocês do que se trata...
É um anti-depressivo
Que maltrata
O estado convulsivo
Da criação.
Trata-se do estágio defensivo
Do ser, como reação
A um fenômeno opressivo
Que chamam de depressão.
- O que sabem os homens
Sobre a depressão?
Se soubessem
Tanto
Quanto
Dizem que sabem,
Não manteriam suas esposas em prisões
Domésticas.
Mas eles não sabem o que são prisões
Domésticas...
TRAIÇÕES
FRENÉTICAS,
ISSO SIM! Suas superstições
São tão lésbicas; quanto às lésbicas
Que lhes confiam os corações.
E depois ainda querem falar de ética...
A única ética que eu conheço,
Está na bula do anti-depressivo que eu tomo.
Nada vale tudo. O dinheiro não vale
A comida que eu como.
O caráter das pessoas não vale
A brancura total do sabão em pó “Omo”.
O amor não vale
Nada.
O nada
Não vale
O tudo que se opõe.
E o que se opõe
Não vale
O direito que contrapõe.
A sociedade
Não presta.
A verdade
É tudo que me resta,
Perante uma justiça
Mesquinha
E submissa
A uma rinha
De humanos que se matam para conseguirem o que querem.
Agora, raciocinem
Comigo: acabo de escrever essa poesia com a finalidade
De inscrevê-la num concurso literário...
- Vocês acreditam mesmo, que existe alguma possibilidade
De honorário?
É óbvio que não.
Portanto, se não for pedir muito,
Gostaria de ter a permissão
De Caetano Veloso, com o intuito
De relembrar a ocasião em que ele fez menção
Ao júri, num Festival de Música Popular Brasileira,
Em função da desclassificação
De Gilberto Gil, da seguinte maneira:
“O júri é muito simpático
Mas é incompetente”.
Ou seja: enfático
E inteligente.
Então, o máximo prático
E o mínimo eficiente
Que um júri poderia
Fazer por minha poesia,
Seria desclassificá-la
E aboná-la
De toda e qualquer hierarquia.
“Me desclassifiquem junto com Gilberto Gil”.
Eu não faço parte disso. Me desclassifiquem junto com todos os contestadores
Contestados e transformados
Em mitos, por historiadores.
Eu não faço parte dessa biblioteca e nem quero virar peça de museu.
Muito pouco se sabe sobre os espíritos que rondam as estátuas,
Tal como as traças que corroem os livros.
- Afinal, o que sabem os lúcidos sobre os loucos?
- O que honra o mérito de um criador, se não a vida da própria criatura?
Portanto, eu não preciso de prêmio algum, porque eu sei bem
O que os demônios fazem. Quanto aos anjos... Dêem
O prêmio para eles.