KABBALAH – A LINGUAGEM DO MUDO FALADOR

Um peregrino curioso e com mania de perseguição, trajando uma esclavina velha e usada, carregando uma enorme vara, com a qual apoia o corpo cansado de tanto andar; vaga pelo mundo à fora, fugindo da própria sombra, em busca de alguma coisa que não sabe o que é. Semelhante ao objetivo da procura que guarda no anonimato, é a sua origem, que ele próprio desconhece. A impressão que se tem à primeira vista, é a de uma pessoa perturbada e acuada, que em conseqüência de algum trauma forte, faz com que reaja de tal forma. Costuma dormir de dia, quando a claridade da luz é maior, por causa do sol; e andar de noite, para fugir da própria sombra.

Porém, numa de suas andanças noturnas, a curiosidade pregou uma armadilha para o peregrino anônimo. Foi quando vasculhava uma casa velha e abandonada, que, sem perceber, pisou infalso numa portinhola oculta no chão, por estar camuflada com um tapete, causando a queda do inesperado visitante, a um porão, onde se encontrava uma antiga biblioteca, de quem ali morou um dia. Em conseqüência de uma pancada na cabeça, provocada pelo tombo, o peregrino passou a ter alucinações, que por alguma razão desconhecida até então, envolviam ele e as pessoas que moraram naquela casa.

A princípio, um barulho inconstante de tormento pode não está diretamente ligado a tempo e espaço... Mas quando o tempo e o espaço estão diretamente ligados a um barulho inconstante de tormento, o mesmo se torna vestígio de um princípio, mesmo que não seja. Ou seja, se antes não existiam lembranças, toda e qualquer alucinação passa a ser um vestígio no anonimato de uma incansável busca sem fim. E nessa busca, o peregrino encontra dois vestígios que fazem parte da sua alucinação: um homem e uma mulher.

Ele se chamava Taná, e ela, Aggadá. Semelhante ao peregrino, eles fugiam de algo, em busca de outro. A única diferença é que eles sabiam do que fugiam, e o que procuravam; e o peregrino, não. Porém, qualquer vestígio, tanto da fuga, quanto da procura de Taná e Aggadá, que pudesse estabelecer um ponto chave entre os dois, era envão para o peregrino, porque ele não sabia por onde começar.

Até que inconstantes cenas de incêndio, que apareciam nas suas alucinações, despertaram curiosidades no peregrino, sobre os poucos livros queimados na biblioteca, fazendo com que o mesmo se ocupasse deles. Mediante às alucinações, o peregrino procurava manter um nível com os seus mais novos amigos, através das informações que recebia dos livros. Com o passar do tempo, o peregrino se conformou a conviver com as suas alucinações, como se fossem reais, e não, produtos da sua imaginação. De forma que, tanto Taná, quanto Aggadá, faziam parte da mesma história, ou estória, em que ele, o peregrino, era um simples espectador.

De acordo com a narrativa, Taná e Aggadá viviam numa época em que nada podia ser escrito, para que maior fosse o sigilo das informações passadas. Logo, a única forma de se comunicarem era através da fala, pois tudo que era encontrado, tanto escrito, quanto quem escrevia, eram queimados. Essa foi a razão encontrada pelo peregrino, para os livros estarem queimados. Sendo assim, a trama de Taná e Aggadá começava a ter sentido.

Taná era um mestre da lei oral judaica, que foi transmitida por Moisés ao povo hebreu. Porém, com a passagem de Jesus pela terra, tendo sido considerado este como filho de Deus, muitas coisas mudaram. Nasceu um novo povo, uma nova religião, e um novo testamento, que contrariava o antigo passado por Moisés aos judeus, colocando em risco a vida dos demais, que passaram a ser perseguidos pelos adeptos da palavra de Cristo.

Porém, uma das características que sempre marcou o judaísmo, foi a tradição. Logo, não fugindo a essa característica, Taná marcaria o fim de uma antiga linhagem que procedia de seus ancestrais. Perseguido, ele foi obrigado a fugir e deixar a casa que morava com Aggadá, sua esposa, que lhe fez uma esclavina, para que pudesse fugir, sem ser reconhecido. Taná consegue escapar, deixando porém, todos os vestígios que o incriminavam, no porão da casa. O porão foi invadido, e Aggadá foi presa como responsável pelo material encontrado, por ser dona e única moradora da casa.

O porão, os livros queimados... Enfim, tudo coincidia demais, para ser alucinação. Assim pensava o peregrino, que fascinado com a trama que se desenrolava, procurou dar mais atenção a Aggadá, por ter-lhe despertado uma enorme paixão.

Aggadá ainda era criança, quando o destino de sua vida foi traçado por seus pais, que prometeram-na como esposa, a um primo que se chamava Hallahá. Porém, Aggadá se apaixonou por Taná, com quem acabou casando, mesmo a contra-gosto dos pais. O pai de Hallahá, com o propósito de lavar a honra do filho, acaba matando o cunhado, e pai de Aggadá. Em conseqüência disto, a mãe de Hallahá ficou em estado de choque durante vários dias, por causa da morte do irmão. Além de não aceitar o fato, ela passou também a não aceitar alimento e bebida, o que ocasionou na sua morte, provocada pela inanição. Sentindo-se culpado pela morte da mulher que tanto amava, o pai de Hallahá se suicida, deixando-o órfão de pai e mãe. Revoltado com os acontecimentos que desgraçaram com a sua vida, Hallahá se converteu ao cristianismo, tornando-se inimigo mortal de seu povo. Uma das poucas sobreviventes de toda essa tragédia, a mãe de Aggadá, viria a morrer mais tarde, mesmo em companhia da filha, devido a tão avançada idade.

É claro que o peregrino não obteve todas essas informações através dos livros, mas por intermédio das peças de um enorme quebra-cabeça, em que os fatos começavam a se encaixar.

Como já dizia um antigo ditado: Deus escreve certo por linha tortas... Tal foi a ironia, que fez com que o destino de Aggadá e Hallahá se encontrassem, depois de tudo que aconteceu no passado. Qual não foi o espanto para Aggadá, ao ser presa no lugar de Taná, pelo próprio Hallahá. Embora tenha sido uma surpresa para Aggadá; para Hallahá não havia mistério nenhum , pois além de saber do paradeiro dos dois, sua intenção era somente uma: vingança. Tanto é, que Hallahá prometeu não prosseguir nas buscas a Taná, caso Aggadá aceitasse ser sua mulher. Não tendo outra saída, Aggadá casa com Hallahá, como havia sido prometida no passado, para garantir a vida do marido.

Duas coisas importantes hão de ser destacar na inesperada visita do peregrino, ao porão da casa abandonada: primeiro, que ele não se lembrava de ter aprendido a ler; e segundo, que não eram todos os livros que estavam queimados. Ao contrário do que aparentava a sua alucinação, alguns dos poucos livros que não estavam queimados, pareciam novos, como se nunca tivessem sidos tocados. Lendo um desses livros, o peregrino descobriu que Hallahá significava lei, e Aggadá, lenda.

Alguns meses se passaram após o fatídico casamento, quando Aggadá descobriu que estava grávida de Hallahá. Passiva aos carinhos do marido, Aggadá não mostrava nenhum sinal de compaixão, que amenizasse a sua ira. Muito pelo contrário, a cada dia que passava, Aggadá se tornava cada vez mais rancorosa. Tanto é, que ela nem disse nada para Hallahá, sobre a gravidez, com intenção de fugir, antes que o filho nascesse.

Aggadá era como se fosse uma boneca para Hallahá, que, irritado, passou a beber constantemente, por não ver o seu amor correspondido. Até que uma certa vez, deixou escapar no meio de uma bebedeira, que havia matado Taná. Por alguns instantes, Aggadá se sentiu consumida por um desejo de matar aquele homem que se encontrava a sua frente. Porém, não foi preciso que tamanho desejo ganhasse maior intensidade, a ponto de levá-la a praticar um ato impensado, que só lhe traria mais desgraça; ainda que a sua verdadeira desgraça já se encontrava desfalecido no chão, de tão bêbado que estava, permitindo que a calma abrisse as portas para a fuga tão esperada.

Quando caiu acidentalmente no porão da casa abandonada, o peregrino encontrou um livro entitulado: Zohar, que é o principal documento da corrente mística e religiosa judaica, a Kabbalah. Não sabendo do que se tratava, nem tão pouco entendendo o que o livro dizia, o peregrino tratou logo de se ocupar de outro livro. Foi então que encontrou um livro entitulado: Tanah, que significa Bíblia em hebraico, formada pelas três letras iniciais das três partes que compõem a mesma, que são: Torá, Neviim e Ketuvim. Mas o livro que mais chamou a atenção do peregrino, foi o Midrash, que é uma análise minunciosa dos textos bíblicos, onde constam os nomes de Aggadá e Hallahá, que correspondem ao código básico da lei civil e canônica do judaísmo pós-bíblico, o Talmud Babilônico. Publicado nas academias religiosas da Babilônia, pelos mesmos sábios que compilaram o Midrash, o Talmud consiste em dois importantes documentos do judaísmo: a Guemara e a Mishná. A Guemara é um comentário da Mishná, que corresponde às informações que foram transmitidas oralmente, desde de Moisés até Taná. O mais curioso de tudo, para o peregrino, é que os livros datavam de épocas distantes, um do outro.

Depois de fugir de Hallahá, Aggadá foi para num lugar, que jamais se lembrava ter habitado, A sensação era de um sono profundo, em que ela estava acordada o tempo todo. A realidade era um sonho iluminado, repleto de luzes que piscavam, constantemente, em torno de si. A sensação de leveza dava uma impressão de vôo, como se os pés não tocassem o chão. Um súbito espanto roubou da boca de Aggadá, palavras, que pronunciadas, tornaram-se cúmplices da tamanha visão, que ela dizia ser um objeto voador não identificado. Amparada por um homem que trajava uma esclavina velha e usada, escondendo o rosto, Aggadá pôde apreciar, por alguns instantes, a expressão daquela face, que, semelhante ao lugar, ela jamais havia visto igual.

Ao contrário de Aggadá, o peregrino sabia mais do que ninguém, de que não se tratava de alucinação, a mulher que ele acalentava em seus braços. Quebrada a barreira entre espectador e personagem, o peregrino e Aggadá se tornaram cúmplices da mesma história, porque ele vivia no sonho dela; assim como ela sonhava na realidade dele. Um choro de criança despertou a atenção do peregrino, quando ele percebeu que o lamento partia de dentro da roupa de Aggadá. Cuidadosamente, o peregrino retirou um menino recém-nascido, que se encontrava aninhado no vestido da mãe, como se fizesse parte do corpo de Aggadá, colocando-o em seguida num lugar plano, para que a criança pudesse se sentir mais à vontade. No espaço de tempo em que o peregrino aconchegou o filho de Aggadá num canto, eis que Taná, espantado com o choro de criança que partia de sua casa, abriu a porta, desesperadamente, constatando que era sua mulher, sã e salva, que estava de volta.

Há muito que Taná havia retornado, em busca de Aggadá... Já havia desistido, quando, finalmente, a encontrou. Foi então que Aggadá constatou, que Taná não havia morrido, como dissera Hallahá, que o havia matado. Logo, o lugar iluminado, o objeto voador não identificado e o homem trajando uma esclavina velha e usada, era tudo um sonho? Mas e a criança? Quem haveria de ter feito o seu parto? Taná? O pior de tudo é que não. Taná e Aggadá estavam diante de um enigma que acabara de nascer, enquanto o peregrino andava de um lado para o outro, sem que eles percebessem. Era comos e o peregrino não existisse para Taná e Aggadá. Preocupada, Aggadá tratou, rapidamente, para que Taná fugisse com a criança, temendo que Hallahá estivesse atrás dela. Logo, se ele retornasse à casa e não encontrasse Aggadá, continuaria a busca até encontrá-la. Enquanto que, se Taná fugisse, levando a criança, Hallahá encontraria Aggadá, mas não tomaria conhecimento do filho. Em respeito às súplicas da esposa, que sacrificou a vida para lhe salvar, Taná foge, levando o filho de Aggadá, que ela deu o nome de Tanaim.

Aggadá foi presa por Hallahá, que passou a mantê-la em cárcere privado, num porão. Desde então, ela passou a ter constantes sonhos, em que tinha a mesma visão que teve com o peregrino, quando seu filho nasceu. A primeira vez que o peregrino teve uma presença viva de Aggadá, ele lia curiosamente o Zohar, principal documento da Kabbalah. A partir daí, tornaram-se constantes as aparições de Aggadá, quando o peregrino lia o livro mencionado, da mesma forma que ele aparecia nos sonhos dela.

A Kabbalah é uma corrente de conhecimentos ancestrais, que foram transmitidas oralmente, sendo, posteriormente, compilados e escritos. O principal instrumento de estudo da Kabbalah, é uma árvore em forma de diagrama, onde estão contidos os onze principais caminhos da vida: Kether, a Coroa; Hocmah, a sabedoria; Binah, a inteligência; Hesed, a Misericórdia; Gueburah, a força; Tupheret, a beleza; Netzah, a vitória; Hod, a glória; Yeod, o fundamento; Malkuth, o reino; e, por fim, Da’at, o conhecimento, que é oculto. Caminhos esses, que, mais tarde, serviriam como principais peças, para que o peregrino solucionasse esse enorme quebra-cabeça, que juntariam os destinos de Aggadá e Tanaim.

Tanaim já era bem crescido, quando Taná foi capturado por Hallahá, que o mandou queimar vivo. Fatos levaram a crer, que Taná pressentiu a morte, por ele conceder a Tanaim, a esclavina que Aggadá lhe fizera para fugir. Desde então, Tanaim guardou a esclavina do pai adotivo, e rancor do pai verdadeiro.

Enquanto isso, as noites de Aggadá eram visitadas por constantes sonhos, em que seu corpo era transportado para o porão da antiga casa em que morou com Taná, onde eram praticados rituais de magia, por dez homens, trajando esclavinas de cores diferentes, sendo ela, o centro das atenções. Com a ajuda dos sonhos de Aggadá, que em suas alucinações eram reais, o peregrino passou a se aprofundar, progressivamente, na Kabbalah. Tanto é, que os integrantes dos rituais de magia que apareciam nos sonhos de Aggadá, representavam os principais caminhos da corrente religiosa judaica, que se chamavam: Sephirot.

Certa noite porém, pressentindo a má intenção de Hallahá, que descera ao porão onde Aggadá estava presa, , completamente bêbado; o peregrino invadiu o sonho daquela que dormia, para defendê-la. Hallahá, cego de paixão, já se encontrava totalmente tomado por um desejo louco de agarrar aquela mulher que se encontrava acamada num sono profundo, quando o peregrino o enforcou pelas costas, com a faixa que prendia a vestimenta debaixo da sua esclavina, matando-o. Pega de surpresa, Aggadá acordou assustada, meio sem acreditar no que via, como se pensasse ser um sonho. Mas a realidade era outra... Hallahá se encontrava morto a sua frente. Se não era um sonho, quem havia matado Hallahá? Essa foi a pergunta que Aggadá se fez, ao olhar o homem que se encontrava encapuzado a sua frente, sem poder ver o seu rosto. Até que uma súbita lembrança a levou de volta ao lugar que ela se lembrava ter ido, quando estava grávida de Tanaim, onde conheceu o peregrino. Surpresa e confusa, ao mesmo tempo, Aggadá percebeu que o peregrino trajava uma esclavina igual a que ela dera para Taná fugir. Hipnotizada por um desejo que era mais forte que o seu, Aggadá fez amor com o peregrino, pensando que fosse Taná, sem saber que ele já havia morrido.

O dia ainda estava escuro, quando Aggadá acordou do pesadelo. Hallahá se encontrava morto a sua frente, enquanto que, um outro homem, que não era o peregrino, dormia ao seu lado. Novamente, percebendo a semelhança que existia, entre a esclavina que o desconhecido trajava e a que ela dera para Taná, fez com que um bocejo de Aggadá, misturado com o susto que tomara, entoasse, em alto e bom som, o nome do falecido. Foi então que o desconhecido, recém acordado, explicou a Aggadá, que seu pai se chamava Taná, mas que o seu nome era Tanaim. Este ainda tentou prolongar o seu comentário, mas para Aggadá, tudo estava mais do que explicado... Ela havia feito amor com seu filho, que matou o próprio pai. Mas o que Aggadá não sabia, e que Tanaim tentou esclarecer, é que ele havia ido ali, para vingar a morte de Taná, que foi assassinado por Hallahá, o pai verdadeiro que ele desconhecia.

Depois de tudo que aconteceu, Aggadá fugiu sem rumo e sem direção, mas acabou indo parar no lugar que estivera, quando engravidou de Tanaim. E, novamente, como antes, ela estava grávida, sendo que de um filho de Tanaim. E como este, mais um fato novo aconteceu: o peregrino sonhava com Aggadá, enquanto ela vivia no sonho dele. E nesse sonho, Taná aparece para Aggadá, e lhe diz que ela ia ter outro filho homem, que deveria se chamar Amoarim, como novo portador da sagrada esclavina, que Taná chamou de Cabaia. Não demorou muito, para que o corpo de Taná fosse consumido por uma imensa fogueira, que despertou Aggadá, até então, hipnotizada.

Tudo parecia um processo de regressão... Aggadá se encontrava próxima a sua casa, tendo ao lado, o filho recém nascido de Tanaim. Eram como se nove meses se passassem em nove minutos, restando-lhe apenas uma vaga lembrança do que pudera ter sido um parto preparado, mal sabendo ela, por quem. A única coisa que se lembrava, era de um lugar iluminado, de Taná e de um objeto voador não identificado. Estranhava não ter encontrado o peregrino, que lhe olhava atentamente, sem que ela percebesse. O choro de Amoarim chamou a sua atenção, para uma coisa que ela só havia visto na visão que tivera de Taná, que era o corpo de uma pessoa queimada. Foi então que, ao se aproximar, ela reparou que se tratava de Tanaim, pois estava escrito numa placa bem abaixo do corpo queimado, que se encontrava pendurado numa cidreira. Triste, por saber da morte do filho e amante, Aggadá se sentia culpada, pois sabia que ele havia morrido por ter matado Hallahá, sem saber que ele era o seu pai verdadeiro. Mas o que mais chamou a atenção de Aggadá, foi que Tanaim havia sido queimado com a esclavina que ela dera para Taná, e a mesma se encontrava intacta. Amoarim ainda chorava, quando Aggadá pegou a esclavina, e colocou junto ao corpo da criança, que parou de chorar. O fato foi presenciado pelos habitantes, que se aproximaram para ver o corpo de Tanaim em chamas, e que se ajoelharam perante Aggadá, como se ela fosse uma santa. Perturbada, Aggadá pegou o filho, e, ignorando a tudo e a todos, voltou para casa que morou com Taná.

Amoarim crescia, e, junto com ele; crescia também o assédio à casa de Aggadá... Porém, muitos passaram a enxergar o fato com outros olhos. Enquanto uns chamavam Aggadá de santa; outros a chamavam de bruxa. Pressentindo o perigo que estava correndo, Aggadá tratou logo de garantir a vida do filho, trajando Amoarim, com a esclavina que foi de Taná e Tanaim, para que ele pudesse fugir. Aggadá foi queimada como bruxa, e consagrada como santa.

Amoarim ainda era uma criança, quando fugiu, trajando uma esclavina enorme que lhe cobria o corpo inteiro, sem saber para onde ir. Homogêneo ao peregrino, Amoarim fugia da própria sombra, em busca de algo que não sabia o que era. Tal fato despertou uma curiosidade no peregrino, que passou a procurar alguma pista concreta, que ligasse o passado de um, com o presente de outro. Foi então que, num momento de conflito e desespero, o peregrino tirou a esclavina, e viu gravado no tecido, o símbolo da árvore da vida da Kabbalah, tal como Cabaia, pronunciado por Taná, na visão de Aggadá. Na outra extremidade da esclavina, o peregrino encontrou, bordado, os nomes de Taná, Tanaim e Amoarim. Convencido de que se chamava Amoarim, o peregrino sabia agora, que já havia encontrado o que estava procurando, que era ele mesmo. O seu medo pertencia ao passado, tal era o pavor que tinha da própria sombra.

Sua concentração foi quebrada por uma pedrinha, que caiu da parte de cima do porão, na sua cabeça, fazendo com que desmaiasse. Nesse meio tempo em que ficou desacordado, Amoarim sonhou que Aggadá o levava para fora do porão. Ao acordar, Amoarim não conseguia entender o que havia se passado... Como se não bastasse ter perdido, completamente, a noção de tempo, pois se encontrava velho e com uma enorme barba branca; ele havia perdido também, a noção do espaço, pois no lugar da casa que habitara, ou pensava ter habitado, havia somente uma cidreira, idêntica a que Tanaim foi queimado.

Depois de tudo que passou, ou se é que passou, a única coisa que restou para Amoarim, foi uma dúvida, que, certamente, de agora em diante, seria sua amiga inseparável... Ou seja: - Será que tudo o que aconteceu, foi realmente verdade?